Quebramos o carro na Bolívia

17 de abril de 2018

Já avistávamos Uyuni no horizonte, aquela água na boa, gostinho de conhecer um destino aguardado com ansiedade. Porém ansiedade e estrada ruim não combinam. O excesso de trepidação e velocidade elevada para as condições da estrada foram fatais para nosso carro. A parte dianteira esquerda do carro caiu, arrastou um pouco e o carro parou. “Acabou”. Senti que a m… era grande. Precisei forçar a porta pra sair do carro e ver a lataria do carro caída sobre a roda, e ela mais pra trás de sua posição, forçando a porta do motorista.

Esse post faz parte de uma sequência. Veja aqui o post índice de toda a  viagem pela Argentina, Chile e Bolívia.

Com a lanterna do celular vi que alguma coisa tinha quebrado e que estava vazando óleo. Nenhuma chance de seguir viagem daquele jeito. A noite recém havia caído e eu, a Cássia, minha sogra e nossos filhos, na época com 5 e 3 anos de idade, estávamos encalhados na areia em plena Ruta 21 a 30Km de Uyuni. Imediatamente a Cássia inventariou a comida e água que tínhamos e não era muita, já que estávamos no que seria o final do dia de viagem.

Pelo GPS, a uns 3Km havia um entroncamento. Dava pra ver uma luz à frente na estrada. Ao  longo de toda a viagem não passamos por 4 ou 5 carros, então sentar e esperar ajuda não era uma opção. Deixei a família no carro e saí caminhando em direção àquela luz.

Nesse momento a luz maior vinha de cima. Olhei pela primeira vez o céu mais estrelado da minha vida. Se por algum instante cheguei a pensar na m…. que havia feito ao colocar meus filhos pequenos naquela situação, me dei conta que estávamos todos tendo um privilégio indescritível. Na vida só há uma certeza. E dessa certeza queremos distância. Todo o resto é dúvida, é risco. E o preço de correr riscos é que eventualmente, os riscos se apresentam. Que riscos corremos ao viver nossas rotinas? Passar as vidas sem nunca termos visto aquela infinidade de estrelas é um deles.


Foi aí que começou o verdadeiro espetáculo de humanidade dado pelo povo boliviano. Pouco antes de chegar ao entroncamento, ganhei uma carona. Disse o motorista que parou pra ajudar e a Cássia pediu que fosse adiante e me desse uma carona. Cheguei então a um grande campinamento, onde ficam o pessoal e todo maquinário utilizado nas obras de asfaltamento. Expliquei a situação, pedi ajuda, conversei um pouco com o segurança que me atendeu.

No início da conversa cheguei a pensar que não receberia ajuda, pedi ao menos por um telefone onde pudesse chamar um táxi ou um guincho para nos levar a Uyuni, já que estávamos com duas crianças pequenas no carro. O segurança se afastou, o tempo correu, o frio caiu rapidamente e quando estava começando a ficar nervoso, duas pessoas saíram em uma caminhonete e me perguntaram o que havia acontecido. Eles estavam interrompendo seu descanso depois de um dia de trabalho para irem comigo até o carro e ver como poderiam ajudar.

Foram cerca de  duas horas tentando arrastar nosso carro… o cambão emprestado para cumprir a exigência da legislação argentina não nos ajudou, tentamos com cordas, nada. Sem erguer a frente do carro não havia como rebocá-lo.  Desistimos e sequer conseguimos retirá-lo totalmente da estrada. Nessa hora aprendi a utilidade dos dois triângulos : um à frente, outro atrás do carro, já que ele estava quase no meio da pista.

“Daqui a pouco passa um ônibus, você embarca sua família para Uyuni e fica cuidando do carro. Amanhã cedo pega outro ônibus e segue para buscar um guincho”, foi a orientação que me deram. Peraí, cuidar o carro pra quê, estou no meio do nada! “É que de madrugada passam os rateiros, que saqueiam carros deixados na estrada”. Ah…. Eu estava pensando “Dane-se o carro, agora mesmo é que eu não fico aqui!” quando a Cássia entrou na conversa dizendo que não me deixaria ali sozinho, ficaríamos todos juntos então. Emocionados com essa prova de amor e preocupados com as crianças, nossos amigos nos deram uma carona até Uyuni! Estamos falando de uma viagem de 60Km ida e volta em estrada em más condições, por volta já das 22h, e depois de um dia inteiro de trabalho!!  Não há como expressar gratidão a pessoas assim. Somente participando desse círculo virtuoso, aprendendo com o exemplo deles e tentando no nosso dia-a-dia nos tornarmos pessoas tão boas e prestativas como eles.

E eis que não tínhamos reserva alguma de hotel em Uyuni!! Desembarcamos, agradecemos e pegamos um táxi para bater de porta em porta acordando recepcionistas e perguntando por vagas e preços. Depois de três ou quatro consultas, ficamos no Hotel Céu. Falo dele em outro post. Dormi um pouco e logo ao nascer do sol levantei em busca de um guincho.

Doce ilusão a minha. Tomei um táxi e rodamos por mais de duas horas de casa em casa, oficina em oficina buscando  alguém que tivesse uma grua (seria guincho em espanhol?). Uma estava em manutenção, outra trabalhando em outra cidade, outra não existia mais a anos, e as razões iam se acumulando para a constatação inevitável. Não havia guincho algum em toda a cidade de Uyuni!! Ainda tentamos a possibilidade de um mecânico fazer o conserto do carro no local, solução impossível diante do estrago mostrado nas fotos e do vazamento de óleo.

Precisaria buscar um guinho em outra cidade. Potosí era mais próxima, mas tanto o taxista como os mecânicos com quem falei recomendaram seguir a Oruro. Lá teria mais estrutura e possibilidades de auxílio  mecânico. Isso significaria mais uma noite do carro abandonado na estrada. Diante do problema dos “rateiros”, na verdade nem sabia se ainda existia algum carro a ser resgatado. Então o taxista indicou duas pessoas de confiança a quem contratei para permanecer junto ao carro pelo resto do dia e a noite seguinte.  Fomos até o local e por sorte nada havia sido mexido.

Ao meio-dia então embarquei num ônibus para Oruro. Chegando fui direto a uma oficina que a Cássia havia encontrado na internet, que supostamente consertaria Mitsubishi, mas para onde não conseguimos ligação telefônica. Cheguei tarde, estava fechada. Pedi indicação ao taxista, ele não soube informar.  Já passava das 18h e todos lugares que ele conhecia estavam fechados. Então pedi que parasse ao lado de algum guarda de trânsito. A ideia era que em caso de qualquer acidente de trânsito eles precisariam ter um guincho para atender!  Então saberia me indicar alguém. Deu certo!


O guarda de trânsito me passou o telefone de um contato e disse que eu citasse seu nome.  “Vai ganhar comissão”, pensei. Mais tarde morderia a língua por esse pensamento, a indicação do policial foi decisiva para que eu conseguisse atendimento!! Ligamos para ele, fomos ao endereço indicado. Eureka, enfim encontrei um guincho! O caminhão estava ali, parado em frente ao endereço.

Conversa vai, conversa vem sobre valores, chegamos a um acordo e saímos em outro carro, para outro lugar da cidade. Não seria aquele o guincho a ser usado.  Fomos a uma garagem, de onde precisaram movimentar mais dois ou três caminhões para retirar um guincho  estacionado ao fundo. Saímos dali em busca de troca de óleo, como o  guincho estava parado a dias o motorista alegou que não estava em condições  de rodar. Era quase meia noite já. Demoramos a achar uma troca de óleo. Conseguimos.

Foi aí que quase 1h da manhã meu motorista resolve dizer que não ia fazer a viagem, que era pouco dinheiro. Eu não tenho sangue de turco, mas palavra uma vez empenhada pra mim pesa pra caramba. Ele alegou que não sabia que o carro estava além de Uyuni, e que o valor combinado era apenas  até Uyuni. “Ok, sem problema, vou falar com o Jorge (nome trocado, a pessoa a quem o policial havia indicado e com quem combinei tudo), informar a ele e vou procurar um hotel. Amanhã busco outro guincho”.  E o cara não queria me deixar ir!  Insistia por mais dinheiro, eu não abria mão de cumprir o combinado, até que desci do caminhão e saí a pé.  Foi então que ele me chamou e aceitou irmos adiante.

Na estrada o clima voltou a ficar leve, falamos de futebol, família (ele tem um bebê recém nascido), política (Ele elogiava o Evo Morales, e eu ouvia quieto pra não ficar na rua). Chegamos a Uyuni por volta das 4h da manhã. Fui ao hotel ver a Cássia e as crianças, descansar um pouco e combinamos de encontrá-lo em um posto  na saída da cidade ao nascer do sol.

Existem três saídas de Uyuni. Em cada uma delas há um posto de combustível. Encontrei ele na segunda tentativa.  Fomos enfim ao carro! Tudo em ordem por lá, as pessoas que passaram a noite no local relataram que passaram outros carros, mas apenas um carro da polícia chegou a parar. Revistaram todo nosso carro, bateram nas laterais em busca de alguma coisa escondida, não acharam nada e foram embora.

Se você imagina um guincho desses que a plataforma desce, o carro é puxado pra cima e ela volta bonitinha ao caminhão, esqueça. A “grua” é um gancho ao qual o carro é pendurado pelas rodas e içado. E lembra que meu problema era justamente a roda caída!! Mas deu certo. Carro no caminhão, voltamos a Oruro!

Paralelo a isso, a Cássia tratava de cuidar da família sozinha. No dia anterior havia circulado pela cidade, encontrado  um parquinho para as crianças brincarem, feito refeições num restaurante local, negociado com o hotel… estava fazendo o possível pra economizar dinheiro, já que não sabíamos ainda o total da conta do conserto do carro, nem se teríamos como sacar mais dinheiro em espécie por ali. Pedi a ela que fechasse as malas e embarcassem todos para  Oruro no mesmo ônibus do meio-dia. Nos veríamos lá à noite.

Ok, consegui tirar o carro da estrada. Mas e agora? Onde vamos arrumar ele?? Ainda tinha em mente aquela oficina, a primeira que fui ao chegar a Oruro. “Lá é caro e vão demorar a te devolver o carro. Vão pedir peças de Santa Cruz. Deixa comigo que eu conheço uma oficina que conserta esses caminhões grandões que estão trabalhando na rodovia, eles fazem as soldas e dura pra sempre, melhor que original!! “. A essa altura da viagem o stress da negociação do preço estava completamente superado. Confiei na indicação da oficina dele.


A burocracia estatal atrasou nossa saída, precisamos registrar o transporte do carro no posto policial antes de iniciarmos a viagem, e isso nos tomou mais umas duas horas.  Chegamos em Oruro a noite. Passamos na frente da “oficina” indicada. Era pouco mais do que três ou quatro telhas e uma lâmpada incandescente. E tinha mesmo dois caminhões grandes parados ali. Se “quem tá na chuva é pra se molhar”, e eu já estava encharcado, entreguei a chave do carro, desejei boa sorte, peguei um táxi e fui pro hotel onde a Cássia já estava hospedada.

Dia seguinte fizemos um turismo inesperado, conhecemos Oruro, a Virgen del Socavón, aprendemos sobre o famoso (mas desconhecido por nós) carnaval de Oruro e no final da tarde liguei pra perguntar pelo carro. Estava pronto!! Quanto? USD100!!! A partir de agora todas as manutenções do meu carro serão feitas aqui na Bolívia, pensei…

Obviamente a peça quebrada não foi trocada, apenas soldada. Grande coisa. O carro estava andando e está andando novamente e é isso que importa! Estamos de  volta ao jogo!!! Corri pra buscar, corri pro hotel, corremos todos pra carregar as malas e ao cair da noite, pra não perder o costume, deixamos Oruro para trás! Com  dois dias de atraso, chegamos a Uyuni e no dia seguinte retomamos nosso roteiro!!



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1 Comentário:
  1. Antonio Vidal
      25/10/2018 - 21h24

    Boa noite amigo!….primeiro parabenizo-o pelo seu comprometimento e determinação. Depois parabenizo-o por atravessar esta verdadeira odisseia ao ver seu carro quebrado e ter logrado êxito. Mas com humildade opino que na sua próxima expedição, avalie a possibilidade de fazê-la com um veículo maior e mais bem preparado. Penso que para este tipo de investida, as picapes 4×4 são a melhor escolha. Forte abraço e que DEUS esteja ao seu lado e da sua família também como estivera nessa situação.